21 de junho de 2011

Urbanidades


 

Se eu pudesse ver as folhas da bananeira
Se eu pudesse ver os coqueiros
Se eu pudesse ver as estrelas que este céu não tem
Se eu pudesse saborear o sol...

E ouvir as cactáceas

Se eu pudesse alavancar o rio
E beber de suas entranhas...

Ah se eu pudesse correr os meus dedos sobre as águas do mar...

E se eu pudesse ainda borboletear
E gafanhotear ou abelhar sobre os verdes lençóis...

Ah se eu pudesse nonadear em paz!

Eu viraria infinito.

Mas as buzinas e os meus papéis,
fazem-me a árvore derrubada e o sabiá morto de stress.
Fazem de mim o revés,
e finjo que não sou assim:
Poeta de mim mesma,
começo do fim.


Cynara Barros – 2003.

14 de junho de 2011

"VOVÓ MARIA"



"Vovó Maria", era assim que eu a chamava. Nada me metia um sorriso tão grande no rosto quanto dizer: "Vamos para a casa de Vovó Maria". E era assim, tão simples e singela quanto o seu nome, que a minha avó sempre se apresentava. Nunca a vi com algo no rosto que não fosse um sorriso enorme para nos receber. Tá certo que às vezes ela ficava brava e até mesmo ranzinza. Mas nada que durasse mais do que alguns minutinhos.

Quando eu a conheci, ela já tinha boa parte daquela multidão de cabelos brancos que circundavam sua cabeça no dia da sua partida. E eu ainda nem sabia quanta história cada um daqueles fios tinha para contar. Do ponto de vista humano, diriam que ela era uma "simples" dona-de-casa (como se ser "dona-de-casa" fosse algo simples...), que não fez faculdade e não trabalhava. Do ponto de vista humano. Mas do ponto de vista das coisas que não se vêem, eu posso dizer que a minha avó era P.h.d. em Sabedoria, Amor e Compreensão. Era doutora honoris causa em cada um desses assuntos.

Doutorar-se em Direito, Engenharia ou Medicina? Montar uma grande empresa e ficar rico? Isso é fácil. Difícil é chegar ao fim da vida com a família reunida em amor, em seu leito de despedida. No dia em que Vovó Maria se foi, não havia qualquer distinção de sentimento. Todos, fossem filhos, netos, bisnetos ou tetranetos, choravam pelo mesmo motivo: por  ter perdido aquela palavra sábia e oportuna, aquele sorriso aconchegante e aquele abraço amável e consolador.

Na madrugada antes de ela partir, o hospital só permitia um acompanhante para dormir com ela. Vovó Maria tinha três. Eu era uma delas. Passei boa parte da noite ali, sentada na poltrona ao lado de seu leito, olhando a sua respiração ofegante, naquele sopro de vida que ainda lhe restava. A minha vontade constante era arrancar-lhe dali e levar embora pra casa, pra desfrutar da sua companhia por mais alguns anos. Mas a sua respiração era mantida por aparelhos, e os órgãos, já bem cansados, não respondiam mais da mesma maneira. Minha Vovó Maria estava sofrendo. Pela primeira vez eu a via assim. 

No fundo, todos já sabiam que era chegada a hora. Vovó Maria também. Há muito ela vinha se despedindo de todos. De um ano pra cá, pelo menos, ela sempre dizia que estava chegando a hora. Aos 90 anos, com uma lucidez espantosa e um brilho ofuscante no olhar, aquela mulher que superara uma vida de dificuldades, a cura de um câncer, a morte de três filhos e a convivência com o Mal de Alzheimer que roubou as memórias de sua alma-gêmea, já sabia que iria partir. Mas como é possível, dirão os incautos?

E eu lhes direi: é possível porque a minha avó era pós-doutora em Sabedoria, Amor e Compreensão. E ela foi doutrinada pelo mais competente dos professores. Na verdade, pelo único que consegue ser perfeito: Jesus Cristo. Assim como Enoque, Davi ou Noé, Vovó Maria andou com Deus e Ele fez fluírem dela rios de água viva. Rios capazes de salvar, serenar e multiplicar os frutos de qualquer árvore que ali fosse plantada.

Da minha avó, brotavam sempre os sorrisos mais doces e as palavras mais sábias. Minha avó nunca insistiu na conversão sequer dos seus próprios filhos. Ela amava a Jesus e seguia a Deus, mas sabia como poucos que só o Espiríto Santo é capaz de converter. Que só Deus é capaz de quebrantar os corações mais resistentes. Ela orava constantemente por todos e quando havia uma oportunidade, pregava a palavra e falava de Jesus, mas sempre seguindo exatamente aquilo que Ele pregou: o amor que liberta. O amor que é tão puro e desinteressado, que nos deixa livres para escolher, ainda que as nossas escolhas nos levem ao abismo.

Ir a Garanhuns, nunca mais será a mesma coisa. Não haverá mais "Vovó Maria". Mas haverá sempre a certeza de que aquela grande mulher partiu deixando na terra um exemplo de alguém que andou com Deus.

Hoje, em minhas orações, eu peço a Deus que me faça ser sábia como a minha avó, em quem se podia nitidamente ver a face de Jesus. Para que um dia os meus netos, assim como os dela, possam dizer: "Eu te amo, Vovó, e me orgulho de ser seu neto". Para que, no dia da minha partida eu esteja tão perto do Pai a ponto de saber que estou sendo chamada por Ele.

Porque, no meu leito de despedida, não serão os meus bens ou os meus títulos que vão segurar a minha mão e cuidar de mim, mas aqueles que, em vida, Deus me conceda o prazer de servir e dizer que amo, como sempre fez dona Maria Florêncio de Barros, minha eterna e muito amada "Vovó Maria".

Cynara Barros, neta - com muito orgulho - de Vovó Maria.