25 de abril de 2011

A dor do século


Me carcome os dedos
mas não todo, só as pontas.
Desdenha de mim e das minhas chagas.
É maldita, desgraçada.
Invade-me toda, corrói-me a alma.

Levo esse semblante da noite
em meu olhar embaçado.
Sorriso vazio, leito desarrumado.
E tenho fome.
E me consome.
E desnorteia.
Levo esse semblante da noite
Em minhas veias, teias, feias.

E acordo do não-dormir.
Em verdade não durmo nunca.
Pesa-me o tudo, pesa-me o nada.
Minh'alma tem peso de um milhão de plumas.

Carrego a leveza de um caminhar.
Ofegante, amedrontado.
Sou poeira, sou o pó emudecido do que já passou.
Sou o desassossego.
Estremeço.

E nego. Consoante minha solidão.
O pesar de dois milênios.
Da pressa. Da vaidade.
Só aceito aquilo que me for de destino.
Mesmo que essa espera me custe a despedida.

Ou morro sem saber da morte.
Ou morro sem saber da vida.


Cynara Barros

27.08.06