28 de maio de 2011

É chegado o novo tempo.



Calemos.
Aquele senhor de voz efusiva vai falar.
Ouvidos atentos!
Acalmai-vos! É chegado o novo tempo.

Ele tem a missão de salvar.
Os espantalhos já estão nos campos.
Esperemos.
O que é isso?
É pó(lvora). A diplomacia do novo tempo.
Escutemos.
É o grito da ressurreição.
Mas é vermelho demais!
Precisamos de uma bandeira.
Pra nos amarrar. Agora estamos presos.
Uns aos outros. Com a nossa bandeira dourada.
Já acabou? E o senhor de voz efusiva?
Está vindo aí.
É outro? Ou ele só tirou o bigode?
Silêncio!

Calemos.

Aquele senhor de voz efusiva vai falar.
Ouvidos atentos!
Acalmai-vos!
É chegado o novo tempo.


Cynara Barros – 07.03.03

19 de maio de 2011

Espelho




Sabor de orvalho salgado
Cheiro de relâmpago e guarda-chuva
E eu aqui no meu quarto,
Olhando as meninas na rua
Coloridas de amarelinha
E de luar.

E eu costurando espinhos,
Em meus girassóis.
E jantando,
Lençóis de seda,
E rútilas de esmalte.

Saí na rua.
E vi o inferno.
No bicho.
Na imundície do pátio.
E tão perto, o céu,
desenhado com giz sobre a calçada.


Cynara Barros – 2002

PS - Hoje eu decidi postar essa que é a minha poesia preferida (entre as que eu já escrevi, claro...)


14 de maio de 2011

Ah, a inspiração, essa travessa!



Ah, a inspiração, essa travessa!
Faz e refaz meu universo
E me joga suas artimanhas debochando em versos
No elástico desconexo de sua brincadeira

Me repuxa do inferno ao céu
Numa pedrinha
No rabiscar do giz ou da varinha.
Me faz em pó de mel
Risca de fel ou gargalhar de bruxa.
Me desdenha, bate na cara ou se estrebucha.
Me fala de encanto, amor e solidão
Diz-me que se perdeu do coelho
E chacoalha sua imagem nítida no espelho.

É torta, esganiçada.
Me vem de olhos vendados como caçoada
E conta vinte séculos pra eu me esconder
Mas grita pelo espanto do anoitecer.
Treme, se amedronta e me atordoa
Foge com a chuva e como alma ecoa
Mas logo se refaz no orvalho que me respinga o olhar,
Embaça o coração,
E voa ao suspirar.



Cynara Barros – algum dia chuvoso em 2005.

10 de maio de 2011


Angústia




Vultos de um soluçar
me vêm ao alçapão da mente
Enquanto um torto calafrio se aconchega.
E ao escalar minhas entranhas,
se desfaz em milhares de respingos
Amorfos
Amaldiçoados
Apressados.
E me tomam os olhos e os dentes.
A boca se desfaz em murmurio,
O travesseiro, em incertezas.

E ao fundo, no pulso que se acelera,
Uma devassidão de nem mil bombas atômicas.
E mesmo que no rosto se maquie a estética,
fica, no sótão da devastação,

Essa sombra que me roubou o alento,
e só espera que eu saia,
pra recomeçar.



Cynara Barros.
08.10.05

6 de maio de 2011

Caminhada


Caminhei por passeios vazios
Chorando a exatidão da tua estrada
De versos mudos pela madrugada
De encontros pelo céu tardio

Quantas canções de alvorecer...
De pássaros e chuvas de embriaguez
Outono deserto em minha insensatez
Deixei-te enxergar em meu enlouquecer

E entristecido sonhei que te afagava
de chuvas de prata e brancas despedidas
E só pelo aceno saudado na partida
Vi que tu não eras quem eu esperava.

Rompi a mordaça, e te gritei na lembrança
Qual mar que amedronta.
Despedacei-te em fotografia.
E te atirei contra a vidraça.

E não sem dor, sem rumor ou rancor
Ou sangue a respingar em meu sonhar.
Mas respirei em meu cantarolar
Subi escadas, dobrei esquinas.

Mas te reencontrei com apenas um olhar,
Na vizinhança do meu sorriso mais torto,
Do peito bambo e estômago frouxo,
Um segundo depois de tentar te matar.


Cynara Barros

25 de abril de 2011

A dor do século


Me carcome os dedos
mas não todo, só as pontas.
Desdenha de mim e das minhas chagas.
É maldita, desgraçada.
Invade-me toda, corrói-me a alma.

Levo esse semblante da noite
em meu olhar embaçado.
Sorriso vazio, leito desarrumado.
E tenho fome.
E me consome.
E desnorteia.
Levo esse semblante da noite
Em minhas veias, teias, feias.

E acordo do não-dormir.
Em verdade não durmo nunca.
Pesa-me o tudo, pesa-me o nada.
Minh'alma tem peso de um milhão de plumas.

Carrego a leveza de um caminhar.
Ofegante, amedrontado.
Sou poeira, sou o pó emudecido do que já passou.
Sou o desassossego.
Estremeço.

E nego. Consoante minha solidão.
O pesar de dois milênios.
Da pressa. Da vaidade.
Só aceito aquilo que me for de destino.
Mesmo que essa espera me custe a despedida.

Ou morro sem saber da morte.
Ou morro sem saber da vida.


Cynara Barros

27.08.06