14 de maio de 2011

Ah, a inspiração, essa travessa!



Ah, a inspiração, essa travessa!
Faz e refaz meu universo
E me joga suas artimanhas debochando em versos
No elástico desconexo de sua brincadeira

Me repuxa do inferno ao céu
Numa pedrinha
No rabiscar do giz ou da varinha.
Me faz em pó de mel
Risca de fel ou gargalhar de bruxa.
Me desdenha, bate na cara ou se estrebucha.
Me fala de encanto, amor e solidão
Diz-me que se perdeu do coelho
E chacoalha sua imagem nítida no espelho.

É torta, esganiçada.
Me vem de olhos vendados como caçoada
E conta vinte séculos pra eu me esconder
Mas grita pelo espanto do anoitecer.
Treme, se amedronta e me atordoa
Foge com a chuva e como alma ecoa
Mas logo se refaz no orvalho que me respinga o olhar,
Embaça o coração,
E voa ao suspirar.



Cynara Barros – algum dia chuvoso em 2005.

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